24.2.10

Leitores pelo Mundo: Viajando nas Trilhas (Parte 01)

Serra do Gavião, Pernambuco. Admirar a paisagem é sempre algo. Foto: Virgínia França.


Se tem algo que não é para os fracos é o tal "turismo ecológico". Falta de estrutura, calor, sol escaldante, insetos, comida ruim, excesso de peso para carregar nas costas... Isso é o que o viajante amador comumente visualiza numa incursão ecológica mata adentro. Para nossa grata surpresa, a imagem é tão falsa quanto uma nota de 3 reais. E é isso que a minha brilhante amiga - e agora colaboradora - Virgínia França veio contar aqui no Viajante Amador.

A participação dela se derá numa série de três posts da coluna "Leitores pelo Mundo". Sem mais delongas, vamos lá?

VIAJANDO NAS TRILHAS

Parte 1

Fazer trilha também é viajar, um viajar que pede um mínimo de espírito de aventura com uma saudável disposição para descobertas. Esqueça a imagem de trilheiros como aventureiros sem juízo e com preparo físico de atletas olímpicos; não é preciso ser um Indiana Jones para ser um trilheiro amador. O básico: certifique-se de aderir a um grupo responsável e preparado; informe-se sobre os percursos; providencie vestuário adequado (muita atenção ao calçado!) e provisões suficientes. Uma dica inestimável é ser criterioso com o conteúdo de sua mochila (ou pochete), porque será você que a carregará. E quanto ao preparo físico, a lógica diz que qualquer trilha pode ser feita por qualquer pessoa. A variação fica por conta do tempo necessário para cada um completar o percurso e, claro, o estado em que cada um chega ao final da trilha.

Comecei a fazer trilha em 2009, levada por amigos e hoje, nove trilhas depois, já me considero uma trilheira com uma razoável experiência (gasto bem menos tempo pra decidir o que vai ou não na mochila). Já fiz trilha com chuva, sol de rachar, em mata, sertão, caverna e praia, com neblina, com descida, com subida, dia claro, noite escura, com rapel, de ressaca, de óculos, com lente de contato, com banho de mar, de lagoa, de cachoeira, com frio e com calor, conhecendo quase todos no grupo e também sem conhecer quase ninguém. No final das contas o que posso garantir é que cada trilha é única e que, pelo menos comigo, esse negócio é bom demais e vicia.

O Vale do Catimbau com a Pedra do Cachorro e a chuva se aproximando. Foto: Adrianna Coutinho.

A minha primeira vez em trilhas já foi tipo “imersão total”: três dias, três trilhas. Depois de viajar a manhã inteira (a primeira trilha que se encara é a de ônibus), chegamos a nosso destino, e, como éramos um grupo grande, ocupamos duas pousadas em Buique (285 km de Recife). Após um almoço improvisado em uma padaria (era feriado e quase tudo na cidade estava fechado), seguimos para a Vila de Catimbau e, no caminho, da estrada mesmo, era possível admirar o Morro do Elefante. Depois das apresentações dos guias locais, de receber as instruções e de fazer um alongamento, partimos para a Trilha das Torres. A trilha leva esse nome devido às formações de pedra que lembram torres e estão por toda parte no caminho. 

Para uma “primeira vez” foi uma experiência amar-ou-odiar, sem meio termo; teve muita subida, chuva, frio, vontade de ir ao banheiro, paisagens maravilhosas, bois pouco amistosos e terminou de noite, numa escuridão de breu, e o tempo todo sob o olhar vigilante da Pedra do Cachorro. Eu, é claro, amei.

A imensidão e a beleza da vista compensa qualquer cansaço. Foto: Virginia França.

No dia seguinte, apesar das dores musculares de praxe, estava animadíssima para a segunda trilha, a do Canion. Começando de manhã cedinho e com muito sol, calor e visuais de tirar o fôlego (hoje me pergunto se o fôlego faltava por algum outro motivo).

Essa é fácil de ver. Uma cabeça de tartaruga dando um beijinho em um passarinho. Foto: Virginia França.

As formações rochosas além de lindas são inesperadas: afinal, ninguém olha pra uma pedra esperando ver um cavalo marinho ou uma tartaruga!! O eco que te responde faz todo mundo parecer um bando de loucos gritando para o vazio. De volta à Vila de Catimbau, com o dia ainda claro, é possível apreciar o artesanato local. E em Buique, com o comércio aberto, as opções de alimentação são satisfatórias.

O Sítio Arqueológico Alcobaça, embora careça de estrutura, é bem sinalizado. Foto: Virginia França.

Terceiro e último dia, acordar cedo para ir ao Sítio Arqueológico Alcobaça e testemunhar a História conhecendo o segundo maior mural de pinturas rupestres do Brasil (o primeiro fica no Piauí) que datam de cerca de dois mil anos (trilha também é cultura.). A trilha foi curta, até porque era preciso voltar para Recife nesse mesmo dia, mas cheia de informações sobre a flora e a fauna local, além das pinturas rupestres em si, que infelizmente não estão preservadas e protegidas da maneira mais adequada. Mas ainda assim são impressionantes.


As pinturas do paredão tiveram sua idade estabelecida em cerca de dois mil anos. Foto: Virginia França.

O retorno para Recife foi tranquilo, com muito papo e ótima atmosfera no ônibus, além do merecido descanso pós-trilha, que já começa na viagem de volta. 

Em minha segunda incursão nas trilhas, seguimos para Pesqueira (215 km de Recife), mais precisamente para a Serra do Gavião. No esquema de ir e voltar no mesmo dia, a caminhada fica mais intensa.

Subindo a serra as paradas para admirar a paisagem são indispensáveis. Foto: Virginia França.

Quanto mais subíamos em direção ao topo da serra, mais bonita ficava a vista e as paradinhas eram indispensáveis para as fotos, a contemplação e o descanso estratégico que ninguém é de ferro. Em alguns trechos, usamos o auxílio de cordas para garantir a segurança na subida.

Subindo, subindo, subindo... Foto: Marcelo Negromonte.

O grupo era ótimo e a cooperação, com todos se ajudando nos obstáculos, deixava o clima da trilha muito legal. Falando em clima, o tempo virou e uma neblina sinistra se abateu sobre o grupo. Não tô falando em sentido figurado não, uma serração desgraçada surgiu e nós, que já tínhamos subido um bocado, tivemos que descer por motivos de segurança: não dava para enxergar nada! Alcançar o céu, ou apenas o topo da serra, ficou pra próxima vez.

Neblina desmancha prazer! Foto: Virginia França. 

Durante a descida, começou a chover, tudo ficou escorregadio e como tinha muitos lajedos e o terreno era muito acidentado, a descida foi lenta e demorou muito; em alguns trechos muito inclinados ,precisamos fazer de bumbum no chão por causa do perigo de cair, inclusive algumas calças não resistiram a tamanho atrito e teve gente que ficou com os fundilhos a mostra, mas tudo numa boa, com bom humor e a solidariedade dos colegas.

Olha a fila do tobogã na pedra. Foto: Marcus Henauth.

Terminamos a trilha quase de noite. O saldo final foi de muita umidade, lama e músculos doloridos, mas uma satisfação que não tem explicação lógica. Ah, não vi nenhum gavião na serra.

O lajedo escorregadio. Não parece cenário de filme? Foto: Marcelo Negromonte.

Brejo da Madre de Deus (202 km de Recife) foi meu terceiro destino como trilheira. Saímos de Recife com mais de uma hora de atraso devido a problemas com o transporte, mas a viagem foi boa e após o alongamento ao lado da estrada começamos a trilha com todo gás. Passamos por muitas cercas de arame farpado, o tipo de obstáculo que só é superado com trabalho de equipe e muito cuidado, senão você até passa, mas ficam pedaços seus ou das suas roupas.


É incrível quanta coisa linda cabe em uma vista. Foto: Virginia França.

No percurso, passamos por muitas plantações de palma, a vegetação espinhosa que alimenta o gado e até seres humanos em casos de escassez de outro alimento. No início da trilha, já alcançamos a primeira caverna, muito interessante, só que é ruim de enxergar lá dentro. Mais adiante na trilha, chegamos à outra caverna e por já ser hora do almoço, todos fizemos uma refeição na laje superior da caverna; imagine, era uma caverna duplex!

Almoço coletivo na laje, da caverna! Foto: Adrianna Coutinho.

A trilha continuou com muita subida e cada mirante era mais maravilhoso que o anterior, só que tudo que sobe tem de descer. E nossa descida final foi por uma encosta coberta de vegetação que exigiu muita atenção e deixou todo mundo de perna bamba, com a vista e com o cansaço. Com tanta caverna, o nome dessa não podia ser outro além de Trilha das Cavernas.

Além das paisagens amplas, as trilhas também são ricas em detalhes sempre fascinantes. Foto: Adrianna Coutinho.

Essas foram as três primeiras, e me deixaram absoluta e irremediavelmente viciada em trilhas.

Até a parte 2!


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